Chapter 07 · 5 min 59 sec

O Peso Que Ninguém Vê

A parent's silent vigil — the love that asks for nothing, only safety.

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Lyrics· 775 words

[Criança]

Avô… Como é que as andorinhas sabem quando voltar?

[Avô]

Porque há caminhos que não se aprendem, meu amor. Já nascem connosco.

[Criança]

Mas… quem lhes ensinou?

[Silêncio]

[Fadista]

ANTES DE HAVER UMA PALAVRA, ANTES DO PRIMEIRO CAMINHO, DEUS DEIXOU EM CADA ALMA UMA VOZ PARA NÃO ANDAR SOZINHO!

A ave não conhece o mapa, Mas atravessa a escuridão! Deus não escreveu todas as rotas… DEIXOU-NOS UMA DIREÇÃO!

[Avô]

Eu tinha quase a tua idade quando subi pela primeira vez, Serra acima atrás do gado, frio de março, talvez Sete graus, céu limpo, pouca nuvem, vento brando, E o meu pai seguia à frente, sem falar, só observando.

De repente, o cão parou, patas firmes no caminho, As ovelhas apertaram-se, cada corpo contra o vizinho. As formigas recolhiam, já não havia ave nos ramos, Mas eu ri: «O céu está limpo! Porque é que não avançamos?»

O meu pai olhou a serra, viu aquilo que eu não via: «Quando a criação se cala, escuta o que ela anuncia.» Fez o gado dar a volta, regressámos devagar; Eu zangado, convencido de que o medo o fez voltar.

Nem uma hora tinha passado quando o céu se abriu ao meio, Granizo grosso, vento louco, água e pedra no desfiladeiro. O caminho onde estaríamos desabou sob o trovão; Nesse dia percebi: saber não vem só da razão.

[Criança]

Mas o cão sabia?

[Avô]

Sabia.

[Criança]

Como?

[Fadista]

HÁ AVISOS QUE NÃO TÊM SOM, HÁ VERDADES SEM EXPLICAÇÃO! O MEDO GRITA PARA QUE FUJAS… O INSTINTO ESTENDE-TE A MÃO!

[Avô]

A tartaruga quebra a casca, vê a areia, encontra o mar, Nunca teve quem lhe explique onde deve começar. O salmão cruza oceanos, vence a força da corrente, Volta ao rio onde nasceu, como se o rio vivesse nele.

A andorinha mede o tempo sem calendário ou ponteiro, O elefante encontra água atravessando o mundo inteiro. A loba guarda as crias sem diploma ou instrução, E um cão conhece a tristeza antes da nossa confissão.

Não são mágicos nem perfeitos, também podem falhar, Mas conservam uma escuta que nós deixámos de praticar. Construímos tanto ruído, tanta pressa, tanta opinião, Que pedimos mil respostas sem ouvir o coração.

[Criança]

Então devemos fazer sempre aquilo que sentimos?

[Avô]

Não. Primeiro tens de aprender a distinguir as vozes.

[Criança]

Como?

[Avô]

O impulso exige agora, quer resposta, quer vitória, Quer provar que tem razão sem compreender toda a história. O orgulho fala alto, quer aplauso e atenção, O medo inventa monstros, chama prudência à prisão.

Mas o instinto não te empurra, não te obriga, não reclama, Fica quieto no teu peito como a última pequena chama. Não promete que é seguro, nem que a queda não virá, Apenas diz: «Entre os caminhos, há um que é teu. Começa lá.»

[Fadista]

SEGUE O QUE EM TI NÃO GRITA, MAS NUNCA TE DEIXOU DORMIR! HÁ CAMINHOS QUE NÃO SE EXPLICAM, SÓ COMEÇAM QUANDO DECIDES IR!

Se o mundo disser quem deves ser, Mas o teu peito responder que não, Cala por momentos o ruído… E ESCUTA A MAIS ANTIGA DIREÇÃO!

[Criança]

E tu, avô? Alguma vez não escutaste?

[Silêncio]

[Avô]

Escutei… mas não obedeci. Tinha vinte e poucos anos, Uma mala junto à porta, muitos sonhos, poucos planos. Ia partir antes da aurora, procurar vida noutro lado, E senti que devia entrar no quarto do meu pai deitado.

Qualquer coisa em mim pedia: «Vai abraçá-lo uma vez mais.» Mas pensei: «Regresso em breve. Há tempo. Faz-se depois, como se faz.» Tive vergonha da ternura, medo de parecer criança, Fechei a porta devagar e fui atrás da minha esperança.

Trabalhei longe durante meses, construí o que consegui, Até chegar uma mensagem: «Volta a casa. Vem daqui.» Corri estradas, corri estações, pedi ao tempo compaixão, Mas encontrei uma cadeira vazia junto ao lume do salão.

Não foi partir que me feriu, nem querer a minha vida; Foi deixar para amanhã uma bondade já sentida. Desde então, quando algo em mim pede um abraço verdadeiro, Não negocio com o orgulho, não adio para janeiro.

[Criança]

Tinhas saudades dele?

[Avô]

Todos os dias.

[Fadista]

SE SENTIRES QUE DEVES ABRAÇAR, NÃO GUARDES O ABRAÇO PARA DEPOIS! HÁ VOZES QUE VOLTAM AMANHÃ… HÁ SILÊNCIOS QUE FICAM ENTRE OS DOIS!

Nem todo o pressentir é destino, Nem toda a dúvida diz que não. Mas uma bondade que pede caminho Raramente engana o coração.

[Avô]

Escuta: seguir-te não é seres cego, egoísta ou inconsequente, É juntar o que sabes cá fora ao que reconheces cá dentro da mente. Pensa, aprende, pede conselho, mede o risco, olha em frente, Mas não entregues a tua vida à voz de toda a outra gente.

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